Fonte: Valor Econômio

O deputado federal Rodrigo Maia, novo presidente dos Democratas, nome que rebatiza o PFL, diz que tem como missão aproximar o partido da sociedade. A proposta é atingir especialmente os jovens e para isso vai utilizar a internet que, segundo ele, tem índice de acesso pela população brasileira semelhante ao dos jornais.
Para ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está equivocado ao festejar o crescimento dos beneficiários do Bolsa Família. Defende que o país terá algo a festejar quando puder reduzir a política assistencialista.
Aos 36 anos, com um curso de economia incompleto e no exercício do terceiro mandato de deputado federal, ele atribuiu a sua capacidade de harmonizar, trabalhar em colegiado, com as razões de ter sido galgado à presidência do partido.
Nesta entrevista ao Valor, o deputado diz que está pautando sua trajetória como parlamentar. Eleições para cargos executivos estão reservadas para seu pai, o prefeito do Rio, Cesar Maia. "Ele é a liderança no Rio de Janeiro. Até 2014 eu não penso em eleição majoritária" afirma. A seguir, os principais pontos da entrevista:
Valor: O colegiado que preside o Democratas será um desenho definitivo?
Rodrigo Maia: Foi montada uma estrutura provisória para criação de um conselho político que dê suporte à executiva. Mas basicamente esta será a configuração. A única diferença da antiga é a criação desse conselho que vai ajudar a executiva a lançar as linhas de longo prazo. Já com relação à executiva, a diferença é a criação de vice-presidentes por temas. O presidente (do partido) ficava muito sozinho na hora de analisar os temas. Assim, cada vice-presidente torna-se responsável por um tema. Como estamos na oposição não temos a estrutura do governo para dar o suporte na análise dos projetos, nas análises técnicas do partido.
Valor: A escolha de seu nome para presidente deixou seqüelas na disputa interna do partido?
Maia: O desejo de outros políticos de assumir a presidência do partido é mais do que natural. Ninguém pode reclamar da vontade e do sonho de cada um de presidir o partido. É natural que no processo de escolha tenha havido nomes que se colocaram. E no fim, para a felicidade do partido, acabamos conseguindo uma solução harmônica.
Valor: O que o senhor acha que pesou para escolha de seu nome?
Maia: Acho que foi o meu período na liderança do partido onde acredito que consegui trabalhar de forma colegiada, dando espaço para os deputados não comandando da liderança sozinho. Isso se confirmou com o apoio ao Aldo (Rebelo), quando todos acreditavam que o PFL iria se dividir. O partido majoritariamente votou com o Aldo (para presidente da Câmara dos Deputados) e, depois, também consegui fazer de forma harmônica minha sucessão na liderança do partido, com uma composição garantindo rodízio na liderança e espaço para que dois políticos possam liderar o partido no primeiro e segundo ano da legislatura.
Valor: O grupo do senador Antonio Carlos Magalhães continua isolado no partido?
Maia: De dois, três anos para cá, o grupo do senador Antonio Carlos entendeu que não havia espaço para fazer política próxima ao governo. De lá para cá a situação tem sido muito mais tranqüila. Na minha liderança, tive sempre o apoio dos deputados baianos para todas as decisões que tomei e todos votaram comigo. O partido sempre votou unido. Meu nome tinha o apoio dos senadores Jorge Bornhausen e Marco Maciel mas também sempre teve o apoio do senador Antonio Carlos Magalhães.
Valor: O partido tem recebido críticas por buscar uma imagem renovada sendo comandado por filhos de sua primeira geração de políticos. Como o senhor recebe essas críticas?
Maia: Para mim é muito bom suceder a geração que ainda tem um papel importante na política brasileira mas suceder de forma harmônica. O Agripino (Maia) em certo momento fez críticas ao meu nome, à minha idade... mas tenho certeza de que nesse processo eu vou conseguir mostrar a ele que o meu trabalho sempre será em colegiado.
Valor: A sua trajetória tem sido parlamentar. O senhor tem interesse em ocupar função executiva?
Maia: Tenho a noção clara de que minha chegada à presidência do partido foi por eu ter um perfil, por exemplo, completamente distinto do prefeito Cesar Maia. O prefeito tem um perfil executivo, mais combativo, uma forma diferente de fazer política. Exatamente porque a minha é diferente eu consegui chegar a uma posição que ele mesmo como parlamentar nunca almejou. Ele nunca almejou ser líder de partido, nunca foi a pretensão dele. Espero poder fazer esse ciclo na presidência do partido até 2010. Neste momento, não tenho projeto para o Executivo. Primeiro, porque a presidência do partido requer muito tempo fora da sua base eleitoral. A outra questão é que o prefeito Cesar Maia ainda tem uma ou duas eleições majoritárias para disputar e a preferência é dele. Ele é o líder local, o líder político do Estado do Rio. Não há espaço para duas pessoas da mesma família. Até 2014 eu não penso em eleição majoritária.
Valor: O seu partido tem tradição de aliança com o PSDB e os tucanos já sinalizaram que o ex-governador Geraldo Alckmin deverá ser candidato a prefeito de São Paulo. Ao mesmo tempo, o titular, Gilberto Kassab (DEM) quer disputar a reeleição. O senhor antevê um choque?
Maia: É natural que os prefeitos ou governadores sejam candidatos à reeleição. Mesmo que no primeiro dia de governo não esteja olhando à reeleição é sempre um candidato. Em relação aos outros nomes, está muito cedo. São Paulo é um dos poucos casos de relação entre PFL e PSDB muito consolidada. Não é uma aliança tática. Veio se construindo há muito tempo, na eleição de Geraldo Alckmin, na eleição para prefeitura e se consolidou de tal forma que o (José ) Serra teve condições de sair da prefeitura cedo para que o Kassab assumisse e esse aliança continuou em 2006. São Paulo é atípico até em relação à maioria dos Estados onde existem problemas graves na relação PFL e PSDB. Mas São Paulo é uma eleição estratégica. Acho que devemos esperar a sequência do governo Kassab. Muitas realizações só vão aparecer a partir de 2008. Aí vamos ter como avaliar o peso do prefeito. É natural que avaliação melhore muito, e assim, é difícil que o prefeito não seja uma peça fundamental nesse processo.
Valor: No Congresso, seu partido está liderando oposição ao PAC. Já o PSDB assumiu posição favorável. Como se explica isso?
Maia: Se pensássemos de forma convergente em todos os pontos, seríamos o mesmo partido. Considero o PAC um atraso, É uma visão atrasada de desenvolvimento. Uma visão que olha para políticas da década de 50, 60, 70. Não vai resolver o problema do desenvolvimento. Nem ele nem esses números maquiados do nosso mágico Guido Mantega. Nada disso vai resolver a necessidade de crescimento e geração de emprego.
Valor: Mesmo que haja críticas à forma como governo consiga resultados, há avanços na distribuição de renda. Seu partido tem uma proposta mais eficiente neste sentido?
Maia: Primeiro, o que há de fato é um crescimento do assistencialismo e do populismo no Brasil com aumento dos gastos públicos de forma completamente descontrolada, onde a política não é garantir a todos o mesmo ponto de partida. O que o governo quer é que a pessoa receba um aporte do governo e, para sua subsistência, precise disso para sempre, mantendo a pessoa na pobreza. Nós não podemos compactuar com isso. Temos um bom exemplo no governo do Distrito Federal, onde há uma interação ampla das Pastas de Assistência Social e Trabalho. Temos que ter o entendimento de que a pessoa precisa do apoio quando está abaixo da linha da pobreza mas esse aporte tem que vir com políticas de governo que abram uma porta de saída. O Brasil é um país diferente onde se comemora o aumento da pessoas que estão no Bolsa Família. Se o país estivesse crescendo de verdade, não fosse uma mentira do presidente, o que estaríamos comemorando com o crescimento é o número menor de pessoas precisando do programa. Acho que o que nós dos Democratas temos que conseguir mostrar isso à sociedade.
Valor: Como o partido vai reverter seu declínio eleitoral?
Maia: Além das diferenças em relação à política econômica do PT, também queremos olhar na outra ponta, no desafio do cotidiano do cidadão. Os temas que os atingem no dia-a-dia, como a violência. O partido também vai entrar na discussão ambiental, aliás todos os partidos vão ter que entrar. Esse é um tema mundial em que o Brasil tem um papel relevante. Precisamos introduzir nossas propostas para colaborar. Outra questão é a dos direitos humanos. O grande ponto é como vamos conseguir comunicar com os jovens. O partido está trabalhando intensamente na forma de comunicação, para usar melhor a internet. A rede atinge 20% dos brasileiros e os jornais, 21%. É uma importância brutal. Estamos vendo como a estrutura de internet do nosso partido deixe de ser uma agência de notícias e fique mais próxima do cidadão, usando todas as possibilidades para atingirmos a sociedade através desse instrumento de comunicação.
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